Voltar

                                Cinema  na Cidade de  Osório - RS   

 


Cine   Labor

Conforme se viu  no item  Cronologia dos Fatos (1927 - 1965) o Cine Labor  é oriundo do Cine Electon (ou Elekton) cujo   prédio de madeira  era   localizado na rua Júlio de Castilhos, no trecho  entre as ruas Machado de Assis e Major João Marques, em frente à  Praça da Conceição . Após melhoramentos feitos em  1952,  com a aquisição de novos equipamentos de projeção, o  cinema passou a se chamar  Cine   Labor, em homenagem aos filhos da proprietária  (a viúva Adelaide C. J. Correa), chamados  Laboriou e Labori.  A  Sra.  Adelaide  também  era a proprietária  da Farmácia Caridade na mesma rua,  bem perto do cinema,    na  qual   atendia junto com os filhos e com o funcionário João Francisco Cesar (Titu).   Maiores detalhes  desse  cinema  (Electon e  Labor) podem ser obtidos nos livros indicados como referência.  Notas: 1)  Abaixo, foto de uma procissão, mostrando ao fundo o  prédio do cinema. 2) Segundo o proprietário do cinema (Laboriou D'Avila) o nome do cinema de madeira era "Electon"  com "c".   

 

Procissão na R. Machado de Assis, em Osório (Foto dos anos 40).

  

-   Cinema Antigo  (Prédio de Madeira)

Pelo que me consta,   neste cinema  não havia  palco. A tela  ficava   um pouco elevada   em relação  ao nivel do assoalho, mas  um tanto    perto das   cadeiras da 1a. fila.   As  cadeiras  eram de  madeira com assento  de   palha.   As cadeiras   estavam distribuidas em 2 ou 3  setores  com corredores no meio.  Havia  uma  escadaria de madeira no interior, no   lado direito  do prédio  que   levava  até a   sala de projeção que,  além do  projetor de filmes,  havia  uma mesa para  cortar e emendar os filmes e   um toca-disco para discos de 78 rpm que reproduzia  musicas e avisos para o interior do cinema.  

Segundo depoimento de Nage Mamed, inicialmente  só havia sessões aos sábados e domingos.  Depois de uma certa época,  começou a ter sessões as 4as. feiras.  E mais adiante,  as sessões passaram  a ser  diárias,  com o mesmo  filme passando em   2 dias  consecutivos ou repetindo, na mesma semana, em dias intercalados.

Trabalharam nesse cinema, nos anos 50,  as seguintes pessoas:  Na projeção de  filmes,  o  "Chico"  (da fábrica de café), Telmo Rodrigues,  Sinval Marques, Nage Mamed e  Décio  Bastos.  Francisco Terra da Silva (Chico  Bolão)  e Nage Mamed faziam (ou  desenhavam)  os letreiros  dos  cartazes que iam ser colocados na frente do cinema  ou serem  levados a  pontos  da cidade, como a  estação rodoviária.  Na portaria  ficava  o  "Dozo".  Nota:   O autor dessa Página, quando ainda era  menino,  para ganhar um ingresso grátis a noite,  ia  de  manhã ou de tarde, depois das aulas,  no prédio   do cinema   para  arrumar  as cadeiras de palha (vistos que  não eram   fixadas no  assoalho);  varrer  o  salão  e   levava    os cartazes de propaganda  dos filmes  até  a   estação rodoviária (de Alexandre Renda), ponto de bastante afluência de público. 

Os filmes  chegavam   de  Porto Alegre   inicialmente  pelos ônibus  da  Empresa Jaeger.  Essa empresa era a que tinha a concessão de transporte de passageiros  entre Porto Alegre  e as cidades  do litoral norte desde os anos 1940.  Em  fins dos anos 1950, a concessão  passou para a  empresa Santos Dumont e no final dos  anos 1960 para a Unesul. Os filmes vinham no compartimento  de  bagagens  em latas  metálicas  cilíndricas   medindo uns 30  cm de altura por uns 40 cm de diâmetro (lata deitada). Cada  uma  dessas  latas possuía no seu interior   várias  bobinas,  cada uma delas com um trecho  do filme.   Ver imagem abaixo que mostra um tipo dessas  latas (com 8  faces).  Outras latas  eram completamente cilíndricas, não tendo  faces como  as  indicadas abaixo.   Da estação rodoviária,    as  latas   eram   transportadas por um adulto até  o  cinema  por  carrinho de mão visto que o cinema ficava perto (2 quadras)  da estação rodoviária.  Nota:  Como  eu,  menino na época,    poderia  imaginar  que  50 anos depois,  esse mesmo filme, que vinha dentro de 3 ou 4  latas,   iria  ser  formatado de tal maneira   que poderia caber  em um simples disco de  12 cm de diâmetro (os nossos conhecidos DVDs) para ser visto em um televisor (ou monitor de computador)  dentro de nossas casas.

Latas de transporte de filmes

 

Antes do inicio dos filmes, enquanto os assistentes iam  chegando,  era  ouvida  música  em baixa altura, geralmente  orquestral.  Entre as que tocavam, me recordo de    Noites Nos Jardins  da  Espanha   e  Fumaça  em   Teus   Olhos (Smoke Gets in Your Eyes).     A cortina  em frente à  tela era  composta por duas partes.  Havia um momento  em que tocava-se   música bem conhecida  (que era o timbre musical) indicativo do inicio da sessão. Então  retraiam-se   as cortinas e as luzes eram apagadas paulatinamente.  As sessões eram iniciadas  por um  jornal  de   notícias (noticiário). Pelo que me consta,  o  mais  conhecido, o   Atualidades Francesas,   já era apresentado nesse prédio de madeira  e continuou depois no prédio novo. 

Geralmente a sequência de filmes em uma sessão  era a seguinte: 1) um jornal de noticias, 2)  um desenho (Pato Donald, Tom e Jerry, etc.), 3)  um ou  mais "trailers"  de  filmes  e   4) o filme do dia.  As vezes, passava  um filme de curta-metragem (um "short",   como se chamava) entre  a sequência 3 e 4.   Quando  o filme  arrebentava  durante a sessão, as  lâmpadas se acendiam e   fazia-se um intervalo (5 a 10 minutos) até o projetista  recortar, colar  e rebobinar o filme.  Nessas ocasiões, os fumantes aproveitavam  para sair e   fumar no saguão; os "baleiros"  apareciam  vendendo   balas de goma ou as conhecidas  "azedinhas"  da  Neugebauer,   chocolates,  etc.  Esses baleiros  vendiam   também  os   populares "cartuchos" (amendoins  com cobertura de um caldo  açucarado, colocado dentro de um funil  de  papel, ás vezes,  feito de jornal).  Não me recordo se  nesse  cinema havia  sanitário ("toilete").   Eventualmente,  se   alguém  fumava durante a sessão,  era  "solicitado" pelos proprietários  a apagar  o cigarro.  Sempre tinha algum "gaiato" para denunciar o fumante  ou  então  soltar  uma "piadinha"  durante a sessão.  As vezes, quando faltava luz na cidade  e essa   demorava a voltar, alguém  da direção vinha com uma lanterna  para  orientar  as pessoas a sairem da sala.  No meio da semana à noite, passava muito filme de  faroeste   (ver abaixo), e nos fim-de-semana,  os filmes  eram geralmente dramas ou comédias nacionais que faziam grande  sucesso. 

Nas  matinés dos domingos  o cinema ficava bem  lotado;  os guris  levavam    gibis para trocar  com  os outros. Passavam  os filmes de "bang-bang" (ou de "mocinho")   que faziam a delicia da gurizada. Eventualmente,  o cinema apresentava também  um  seriado, passando 1  ou 2  capítulos  em cada matiné. 

Os  filmes nacionais   apresentados eram em sua grande  maioria    das produtoras  Atlântida e  Vera Cruz.  Geralmente passavam nos fins-de-semana em 1 ou 2 sessões na mesma noite.   Os filmes da    Atlântida  geralmente  eram  comédias (as  chamadas populares  "chanchadas")  que  tinham    como pano de fundo , de  modo geral,  o carnaval carioca.  Já  os   filmes  da   Vera Cruz     eram  dramas   com  o melhor   elenco dos   artistas nacionais tais como Tônia Carrero, Anselmo Duarte,  Eliane Lage, Ilka Soares, Alberto Ruschell,  etc.,  dirigidos  por  profissionais  brasileiros e mesmo do exterior.

Logo da   Atlântida

        Logo da Vera Cruz        

                                                                                                                                                                                                          

Nesse prédio (de madeira)   passaram muitos bons filmes até 1954 quando o prédio foi demolido.  O Cine Labor   apresentava  filmes  das    produtoras  norte-americanas   Columbia,  Warner Brothers,  Paramount,  Universal,  20th. Century Fox, etc.  Além dessas apresentava  filmes mexicanos  distribuidos pela Pelmex,  os   italianos distribuidos pela Art  Films e Lux Films  e  franceses  distribuidos pela  França Filmes, Lux  Filmes e Fama Films.   

                                                                                  

 

-   Situação Provisória   (Clube Comercial)

Por um periodo de  1  ano (entre   abril de 1954 a abril de 1955),  enquanto estava sendo construído o novo prédio  de alvenaria  do futuro Cine-Teatro Labor, seus proprietários    fizeram um acordo com a direção do  Clube Comercial e  alugaram  o  salão de baile  desse clube. A partir disso,  deslocaram os equipamentos de projeção, cadeiras, tela, etc., e  remontaram  o cinema nesse clube.  Havia   sessões  diriamente.  Na referência (9) esse fato é bem  abordado.

 

-    Cinema  Novo    (Prédio de Alvenaria):   

Em 1955/56  iniciam as projeções no novo  cinema de alvenaria, um verdadeiro cine-teatro.  Localizado no centro  da quadra apresentava um  porte  majestoso  como demonstra a fotografia abaixo.  Essa foto foi  tomada entre 1957 e 1960  por  Sérgio Baptista.   Nota-se  da   foto  que ainda  nessa época predominavam  em  Osório as casas de  características construtivas  de origem  açoriana. Na foto, a casa 14 era onde se localizava a Farmácia Caridade, do mesmo proprietário do Cine Labor.

 

Essa sala  de cinema    possuía  muito  boas acomodações, incluindo-se    um mezanino  onde se colocaram  poltronas de madeira  (não estofadas)  com o assento reclinável  (2 ou 3 fileiras). O mezanino  geralmente era   ocupado por  homens e o acesso a ele   era através de uma escada  em concreto.  O   mezanino avançava   sobre  parte  da   platéia  no piso  térreo.  

 Os   casais e as mulheres  geralmente  assistiam  os  filmes  da platéia.   O assento das poltronas  era reclinável  para permitir a passagem das  pessoas para as poltronas mais  centrais. Conforme   lembrado por Aloisio Adib,  de início,  apenas  no trecho sob o mezanino,   havia   poltronas de madeira  com o  assento reclinável. O restante dos assentos  da platéia  era  composto por    cadeiras de madeira  com  assentos de palha.  Foi  somente  a partir da  apresentação do  filme A Volta  ao Mundo em Oitenta Dias (filme produzido em  1956 mas  que deve ter  sido apresentado em Osório por volta de 1958-1960)  que   as cadeiras de madeira com assento  de palha  foram substituídas por poltronas  de madeira com assento reclinável.  Havia 3 setores de poltronas, uma central e 2 laterais.  No lado  da parede esquerda,  perto do  palco,    havia   uma porta lateral  que dava acesso  aos sanitários.   

Pelo que consta,  esse cinema possuia  2 corredores laterais  que permitiam uma  rápida   saída do público  em dias de grande movimento ou  eram utilizados  como saídas  de emergência.   Frise-se  que  aos sábados  geralmente  era apresentado  um filme de grande   sucesso em duas sessões, uma às 20 e outra às 22 horas.  Geralmente a sessão  das 20 horas  lotava o cinema. Dependendo do filme, ele era reapresentado  no domingo,  também em 2 sessões.

Esta  nova    sala   possuia  um  palco elevado  em relação  ao piso das cadeiras e    sobre o palco  ficava   a  tela  que  podia   ser deslocada para  trás, em caso de necessidade.   Embaixo do palco ficava  uma ampla  sala (um porão)  onde eram preparados os cartazes  de propaganda  do filme.  Uma escadinha  lateral à esquerda do palco  comunicava este  ao porão. 

Além dos proprietários,  inicialmente   trabalharam o  "Chico do Café"  na projeção de filmes,  depois substituído pelo  "Militão".   O   "Dozo"   e  depois  o   Orlando Silva ficavam   na portaria  e  o  "Chico Bolão" na elaboração de cartazes.  A  bilheteria  era  ocupada  pela proprietária ou seus filhos.  

Nesse cinema,  passaram   filmes  das distribuidoras   já citadas anteriormente e  também da United Artists (exclusiva do Cine  Labor). Frise-se  que  no Cine   Labor novo   não tinha como padrão apresentar filmes musicais.    Geralmente seus filmes  eram comédias do cinema nacional ou do  mexicano,  dramas (ou melodramas)  e faroestes   do cinema  norte-americano ou mexicano bem como filmes épicos ou superespetáculos   vindos de   Hollywood. Nessa   época o cinema  italiano  começou a produzir dramas épicos também 

Tela de  Cinemascope:      O novo cinema já era dotado  do  sistema de projeção em Cinemascope. Neste sistema o comprimento   da  tela  é  bem  maior do   que  a sua  altura (proporção de 2,55:1) . Uma lente especial (anamórfica)  colocada  em frente ao projetor proporcionava     uma    imagem  "espichada" na tela.    Abaixo  temos uma  ilustração  de como o  sistema funcionava:  à  esquerda  temos   a imagem  compactada  no fotograma (filme) e  à  direita,   a mesma  imagem   projetada na tela, depois de passar  pela  lente anamórfica.  

                                       

 

 

 -   A Censura na Época:

Na época, havia um tipo de  censura  quanto a  permissão  de   idade minima para entrar na sala de  cinema.  Havia os filmes com   censura Livre, indicados para qualquer idade  e uma  separação  entre filmes "Impróprios" e "Proibidos". Nos  filmes  "Impróprios", permitia-se a entrada de   jovens (entre  14  anos e 17 anos)   desde que entrassem   acompanhados pelos pais  ou   familiares (maiores de 18 anos).  Se os filmes eram "Proibidos",  então somente os adultos maiores de 18 anos  poderiam assistir.    Nota: Em certa ocasião, por volta de 1953-54, veio uma nova orientação:  em filmes apresentados durante a noite, só poderiam ingressar no cinema, os maiores de 14 anos. 

 

- Filmes Apresentados:

-   Cinema Nacional:

       Nota:     Os anos indicados se referem ao da   produção do  filme.  Alguns desses filmes foram apresentados no cinema antigo  (de madeira)  e outros (a partir de 1956)  no  cinema novo  (de alvenaria).                                                                                                                                   

Os  filmes nacionais   apresentados eram em sua grande  maioria    das produtoras  Atlântida e   Vera Cruz .  Haviam outras produtoras menores  tais como a  Flama.   Os filmes  produzidos  pela   Atlântida  geralmente  liberados pela censura, pois   eram  comédias  "adocicadas"  (as  chamadas "chanchadas")  que  tinham    como pano de fundo,   de  modo geral,  o carnaval  carioca.  Além dos  comediantes "malandros"    Oscarito e  Grande Otello,  os filmes contavam com  Anselmo Duarte ( o mocinho),   Cyll  Farney (o galã),   Eliana Macedo (a mocinha),  José Lewgoy ( o vilão),  ficando os numeros musicais  com Adelaide Chiozzo (atriz e  acordeonista), Ivon Cury (cantor e comediante)  e outros cantores do rádio (Emilinha Borba, etc.).  

 Neste cinema foram  apresentados, entre tantos outros,  os seguintes filmes da produtora  Atlântida em que a figura principal era o comediante   Oscarito: Carnaval no Fogo (1949), Aviso aos Navegantes (1950)   e  Carnaval Atlântida (1953). Tivemos também  da  Flama:  Agulha no Palheiro (1952) e  Tudo Azul  (1952).  Notas: 1)  Os filmes da Atlântida eram  distribuidos pela UCB (União Cinematográfica Nacional) e as  Flama pela Unida Filmes. 2) Em alguns filmes,  artistas do exterior foram convidadas para  participar das "chanchadas''.  P. ex., a   mexicana Maria Antonieta Pons  fez uma ponta em  Carnaval Atlântida (1952).  Anteriormente, a italiana  Giana Maria Canale já havia  participado do filme O  Caçula do Barulho (1949). 

Filmes:  O Petróleo é Nosso (1954),   O Golpe (1955),  Sinfonia Carioca (1955), Carnaval no Fogo (1949), Carnaval Atlântida (1953) e Aviso aos Navegantes (1951) . 

 

 

                                  

 

Adelaide Chiozzo e Eliana cantando  "Beijinho Doce" no  filme  "Aviso Aos Navegantes"

 

 

 (1953)

(1951)

Oscarito (1906-1970)

 

Anúncio no Correio do Povo 

 

Já  os   filmes  da   Vera Cruz     eram   dramas  com temas nacionais    com  o melhor  que havia  de    artistas dramáticos  nacionais tais como Tônia Carrero, Anselmo Duarte,  Eliane Lage, Ilka Soares, Alberto Ruschell,  Cacilda Becker, Marisa Prado, etc.  Desse  estúdio sairam  também três  comédias  com o comediante "caipira"    Mazzaroppi.    Já os   diretores eram  profissionais  bem  conceituados no cenário cinematográfico, entre eles os  brasileiros   Lima Barreto  e  Abilio P. de Almeida   e   os  oriundos   do exterior como Tom Payne,   Luciano Salce  e  Adolfo Celi.     Nota:  Os filmes da Vera Cruz atualmente  são    distribuidos pela Columbia Pictures ou Universal Filmes.  

Entre os   filmes apresentados tivemos: Tico-Tico no Fubá (1952),  Uma Pulga  na Balança  (1953),   O  Cangaceiro  (1953) e    Sinhá Moça (1953)  .    

 

Filme   Marcante:    Sem dúvida foi   O  Ébrio  (1946)   com Vicente Celestino.  Tratando-se de um filme um tanto antigo (1946), estranha-se  que   só   foi   ser apresentado  em 1954/55  em Osório.  Teria sido uma  reprise?  Nota: Estefilme foi apresentado no Clube Comercial quando o novo Cine Labor estava em construção.  

 

 Cena  do filme  "O   Ébrio"

         

 Foi apresentado ainda no lube Comercial   o filme Sinfonia Amazônica (1953), o 1o. desenho (cartoon) de longa metragem feito no Brasil.      

   

 Sinfonia Amazônica (1953)

   

 

 

-  Cinema Norte-Americano:

Faroestes   Tipo   B:  Eram filmes apresentados  no   meio de semana ou nos  matinés, pois não  eram de média metragem  (duração de 60-70 minutos). Eram os chamados  "filmes  de mocinho",   geralmente    em  preto e branco.  Desse tipo de filme,    me recordo os  do    Durango Kid,    Johnny Mack Brown,  Hopalong  Cassidy,  Allan "Rocky"  Lane. Todos eles  possuiam um um  cavalo cujo nome era conhecido, ou dos filmes, ou dos gibis. Não me recordo de ter visto filmes   do  Roy  Rogers (e o  cavalo Trigger) e  do   Gene Autry (e  Champion)  nesse cinema.  

Durango Kid  e  Raider

Rocky Lane e  Banner 

         Johnny M. Brown e Reno (Rebel)

               Hopalong Cassidy e Topper 

 

De igual modo, passavam filmes faroeste coloridos, em que os "bandidos" geralmente, eram os indios (os pele-vermelhas)  e os "mocinhos"  eram  os  brancos.  Depois dos indios,  os "bandidos"  passaram a ser os "mexicanos".   Do mesmo modo, passavam muitos    filmes de aventuras, os chamados de  "capa e espada"   tais como  Gavião do Deserto, Ladrão de Bagdá   bem como  os filmes de "piratas" com o  Errol  Flynn, etc.     

Em certa época  passou  tambem uma série de filmes   intitulada  Anjos da Cara Suja, em preto e branco. Eram filmes  de média duração (até 1 hora), cada filme  apresentava  uma estória diferente.  A cada semana ou  15 dias   passava um novo filme da série.  Essa série foi   produzida  a partir  do  sucesso do   filme de mesmo nome (Anjos da Cara Suja,  de 1938)  estrelado por James Cagney, Humphrey Bogard, etc.    

Evidentemente, nos matinés, acontecia  aquela "gritaria" e "batida de  sapatos no chão"  sempre  que   os mocinhos saiam no encalço dos bandidos (indios ou mexicanos) ou  os  indios eram perseguidos pela  cavalaria do exército, embalados sempre  pelo som do corneteiro.  No fim do filme era sempre a mesma história:  o mocinho ficava (ou se casava)   com a mocinha e os bandidos eram presos ou mortos. Sempre acontecia  um final feliz.    Nota:   As característiscas  desses filmes  eram as seguintes:1)   a  "mocinha"    era filha  de  um dono de um rancho, um  cara "durão" que não gostava do "mocinho" e  a mãe da  "mocinha"  não aparecia no filme, dando-se   a entender que ela  era sempre  orfã ; 2) o chefe dos  "bandidos"   era geralmente o  dono de um "saloon", andava sempre bem arrumado,  com roupas vistosas, demonstrando que o  dinheiro foi   conseguido a base de falcatruas, seja explorando os pobres ou sendo  chefe de uma  quadrilha que fazia assaltos a bancos ou se apossava da terra dos outros;    3) o  "mocinho"   era um cara  simples, bonitão, andava com roupas modestas, mas era honesto e  bom atirador;    4) depois que começava o tiroteio, nunca   faltava balas no revólver do "mocinho"; ele dava 20  a  30 tiros sem recarregar o revólver o que  era "uma loucura"   e,     5) no final do filme,  o "mocinho" sempre levava a melhor, ficava  ou  casava com  a "mocinha" e os os  bandidos morriam ou eram presos. Era  um  final  feliz e todo mundo saía do cinema  satisfeito.  

Havia tambem os seriados, tais   como   o  do  Super-Homem,  Batman, Congo Bill, etc., tudo em preto e branco.

Anúncio do seriado do Super-Homem em um jornal da capital. 

 

Naquele tempo,  os filmes de outros países    levavam cerca   de  1 a   2   anos para serem apresentados  no Brasil, depois de lançado no país de  origem,  bem diferente do que é agora .  Os  filmes   somente    iam   ser apresentados nos  cinemas  do   interior,   depois de  terminar  suas  apresentações  nos cinemas de  Porto Alegre.    Essa era a regra.  

Tem-se ainda a  relembrar  que em noite   de  ventos   fortes (naquele época, ventava muito em Osório), a sessão de cinema (no cinema antigo, de madeira)   era  prudentemente   cancelada  ou, se já havia iniciada,  era  suspensa,  haja vista  que o vento   causava  um forte barulho na estrutura de  madeira, assustando os espectadores.

 

-  Filmes  em Tela Comum:

 

                                   

Winchester '73 (1950)   

       O Ladrão de Bagdá  (1940) 

                                    

 

O  Gavião  do Deserto (1950)      

 

 

Os Brutos Também Amam (1953)

A Montanha dos Sete Abutres (1951)  

     A Bravura de um Soldado (1953)       

Samoa  (1950)

                                                                                                                                                                                            

Filmes marcantes:    Sansão e Dalila (1949)   e    Luzes da Ribalta (1952) 

Propaganda no Correio do Povo de 1952     

                             

                                                                                                           

              

Luzes  da   Ribalta

Cena final do filme "Luzes da Ribalta"

    

                         

-  Filmes em Tela  de Cinemascope) :                               

Os filmes abaixo são todos   norte-americanos, embora  alguns"posters  estejam  em lingua  francesa ou espanhola.

  Salomé (1953)       

Spartacus (1960) 

A Volta ao Mundo em 80  Dias (1956)

                                                         

     Alexandre, o Grande  (1956)     

 A Ponte do Rio  Kwai (1957)

 Quanto Mais Quente Melhor (1959)    

                                                                                          

                                      Os Vikings  (1958)     

   Trapézio (1956)

    Acorrentados (1958)  

                                                                                             

- Cinema   Argentino   

 Filme marcante:    Deus Lhe Pague (1947)  com Arturo de Cordova e Zulli Moreno

Fez  grande sucesso, filme  baseado em uma peça homônima  do autor teatral  brasileiro Joracy Camargo.  Na época se pensava que esse filme era mexicano, talvez  por ser estrelado pelo  Arturo de Córdova. Com base  nos   calendários dos anos 50 e do anúncio abaixo, eu presumo que esse filme deve ter passado em Osório em 10/Out/1953.   Nota:   O anúncio da esq. foi cedido   por   Laboriou  D'Avila.  

 

                                                                                                                                                                          

-   Cinema Espanhol

Filme marcante:  O Pórtico da Glória (1953)

O Pórtico da Glória (1953)

 

-  Cinema Mexicano:

Filmes marcantes:   Direito de Nascer (1951) e   Anjinhos Pretos (1948).   De  igual modo  fizeram sucesso  outros   dramas  como  Acapulco (1951).   

                                                                         O Direito de Nascer           

                                                                                                                                          

Anúncio  no Correio do Povo (Out/1952

Cenas do filme Angelitos Negros

 

 

As principais atrizes  do Cinema Mexicano (periodo 1930-1960)   eram:   Maria Felix,  Libertad Lamarque, Elsa Aguirre, Ninon Sevilla  e Maria Antonieta Pons.   Outras atrizes com destaque no periodo:  Marga Lopez, Dolores del Rio, Lupe Velez, Katy Jurado, Silvia Pinal,  Miroslava Stern, Maria Elena Marqués,  Sara Garcia, Columba Dominguez, Glória Marin e muitas outras.

Maria Felix     

 Libertad Lamarque   

Elsa Aguirre           

                                                                                                                                         

 

Ninon Sevilla   

 

Maria Antonieta Pons       

                  

 Os principais   atores do periodo 1930-1960 foram: Arturo de Cordova, Pedro Infante,  Jorge Negrete, Carlos Lopez Moctezuma   e  o   comediante  Mario Moreno (Cantinflas).  Outros atores com destaque no mesmo periodo:  Miguel Acevez Mejia,   Germán Valdez (Tin-Tan), os irmãos Victor e Tito Junco, Domingo Soler,  Tito Guizar  e muitos outros.  Entre os músicos, eram figuras constantes nos filmes: Trio Los Panchos,  Agustin Lara, Perez Prado, etc..

Arturo de Córdova  

Pedro Infante 

 Jorge   Negrete    

                                                     

    Carlos Lopez Moctezuma      

                  Cantinflas                

                                                                                                                                                                                                                                            

Cinema   Italiano:  

Os  filmes   geralmente eram bem mais     "apimentados", por tratarem de temas "fortes" (de   franco apelo sexual)  para a época .   

Filmes marcantes:   Arroz Amargo (1949),  Amanhã Será tarde Demais (1949) e Coração Ingrato (1954). 

 

   (1954)

Arroz Amargo 

Anúncio  no Correio do Povo (Jul/1952) 

Anúncio da Folha da Tarde de 1954  

                 

-   Cinema Francês                    

Filme marcante:   As Duas Orfãs (1942)

As Duas  Orfãs  (1942)

                                               

Um Filme Polêmico: 

Neste cinema,  foi  apresentado  o filme   Esquina da Vida   que tratava  de   sexualidade  de modo científico,  porém de modo   franco e real.  Era  um  filme que chocava os mais conservadores, inclusive,  mostrando,  pela 1a.  vez,  o relacionamento sexual  entre adultos  e o  nascimento (parto)  de uma criança.  Esse filme , proibido para menores de 18 anos,  teve duas sessões separadas: uma  somente para homens e outra para as mulheres, conforme  indica o anúncio abaixo de um cinema de Porto Alegre.  

Anúncio na Folha da Tarde  de 1954  

 

Fatos Pitorescos: 

Promoção de Picolés nas Matinês:   Neste cinema, em certa época  o Nilo  Martins teve um bar e   sorveteria no saguão do cinema, incluindo mesas para sentar.  Em determinado momento,  o   Nilo  fez    uma  promoção  durante   para  os   matinés.  Quem comprava  picolé  e  fosse sorteado  com o palito  marcado, ganhava ingresso grátis.  Essa promoção fez muito sucesso, pois aumentaram as vendas de picolés e  alguns felizardos  ganhavam  ingressos grátis . E  o mais  incrível de tudo,  é  que  não era  muito   difícil  encontrar  palitos  marcados.    

Som  dos  Filmes  para  a Praça:  Este cinema possuia um auto-falante  na sala de projeção  apontado  para a Praça da Conceição   que  anunciava  os filmes  e   reproduzia músicas antes das sessões.  Isso criava  um  fato inusitado, pois o Cine Central tambem possuia  um auto-falante dirigido para a praça.  Portanto, com os 2 aparelhos   ligados em volume alto,  ficava  difícil  alguém na praça   entender o que se passava, pois os sons se  misturavam.  Outro fato inusitado, era que  depois e começada a sessão, às vezes,  o  projetista  do filme esquecia    de  desligar o auto-falante  e quem estava na praça  ficava  ouvindo  o   som   e  os diálogos (geralmente em lingua estrangeira) que ocorriam no   filme.  Isso durava as vezes  por 15 -20 minutos,  até  alguém  se lembrar de desligar  o auto-falante. Este fato é lembrado na referência (7). 

 

-  Apresentação de artistas regionais e nacionais:

Além dos filmes que eram projetados, o palco do cinema também servia para a apresentação de artistas regionais e nacionais. Conforme depoimento de Laboriou D'Avila, proprietário do cinema,   os artistas indicados abaixo  se apresentaram no palco do cinema. Além desses,  também  deve ter se apresentado no palco o inesquecível Teixeirinha. Nota:  1)  A dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho apresentou-se nos anos 1930 ou 1940 no antigo cinema (prédio de madeira); os demais foram no cinema novo (prédio de alvenaria).  2)  Quanto a Chacrinha, ele   se apresentou com suas chacretes  nos anos 1960 ou 1970!

       
Alvarenga e Ranchinho (cantores) Nora Ney (cantora) Mazzaropi (comediante)  Chacrinha (apresentador de TV)

 

 

 

 

 

Tonico e Tinoco (cantores)

Walter D'Avila (comediante)

 

 

               

Fonte de Referência:

Livro:

-   Raizes de Osório  -  Cine Labor e sua história -  Laboriou Silveira D'Avila,  Deisi Oliveira Giaccomelli e  Sara Silva da Silveira, pgs. 504 a 507,  (2004)

 

                                                                                                                         


  Voltar